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Óleo provoca medo

Óleo provoca medo e pode ser ameaça para 130 km de praias da PB

PB foi o primeiro a registrar pequenas manchas, mas ficou livre do óleo; falta de previsibilidade das correntes marítimas deixa estado sob alerta

27/10/2019 14h45
Por: Redação
Fonte: Texto de Lucilene Meireles, do Jornal CORREIO
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O litoral paraibano possui 130 km de praias que abrigam uma fauna de valor incalculável. Essa riqueza se concretiza na presença de várias espécies de corais, peixes, crustáceos, manguezais, restingas e algas, compondo o cenário que tanto atrai os turistas. Porém, toda essa beleza pode estar ameaçada, caso o vazamento de petróleo chegue à Paraíba. Na última quinta-feira (24), pescadores encontraram uma tartaruga no mar, presa em uma mancha de óleo, na divisa com Pernambuco, deixando a população apreensiva e mostrando que a ameaça está cada vez mais próxima.

Se houver derramamento no mar, a mancha de petróleo pode se espalhar por milhares de quilômetros, deixando um rastro de destruição e incalculáveis prejuízos, de acordo com a bióloga Rita Mascarenhas, coordenadora do Projeto Tartarugas Urbanas.

Dependendo da viscosidade do material, a mancha pode flutuar na superfície ou abaixo dela enquanto é carreada pelas correntes oceanos afora, contaminando a água e tudo que existe nela.

“O nível de intoxicação dos organismos depende da quantidade e tipo de contato. Se não causa a morte imediata, ela pode ser a médio ou curto prazo, pelo acúmulo de substâncias tóxicas no corpo impedindo metabolismo, alimentação, reprodução, locomoção”, afirmou. De acordo com a Marinha do Brasil, até a última quarta-feira, dia 23, haviam sido retiradas mais de mil toneladas de resíduos do óleo em praias localizadas na região Nordeste.

Efeito devastador em praias

O bioma marinho da Paraíba possui uma grande diversidade de espécies por conta dos recifes formados pela barreira de arenito – que são rochas – e carbonato de cálcio. É neste ambiente que se estabelecem as colônias de corais, esponjas e comunidades de algas.

Praias
Arrecifes do Litoral da PB (Foto: Assuero LIma/Jornal CORREIO)

“Se o material oleoso chegar novamente ao nosso estado, os recifes, que servem como uma barreira física, vão reter grande parte do óleo, diminuindo o impacto na costa. No entanto, se o óleo atingir os corais, esponjas e as algas, o impacto causado a eles será enorme, especialmente se voltar denso da forma que está se apresentando em Pernambuco e Alagoas nos últimos dias”, explicou a coordenadora de Estudos Ambientais da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), Maria Christina Vasconcelos.

A retirada do material dos corais é complicada porque, para isso, é necessária uma raspagem. “Por serem indivíduos muito sensíveis, podem adoecer ou ate mesmo morrer”, enfatizou. Por outro lado, existe ainda toda uma cadeia alimentar que envolve espécies maiores, como tubarões e outros peixes, que se alimentam das algas ali fixadas. “Por essa razão, o risco é de desestruturar uma cadeia inteira e desestabilizar o ecossistema”, afirmou.

Corais podem desaparecer 

Os corais das praias de João Pessoa vêm sendo degradados pela presença descontrolada de turistas, comerciantes – que atuam na maré baixa – e até pescadores. A nova ameaça, com o vazamento de óleo, pode impactar ainda mais os corais que já estão fragilizados, e há o risco real de desaparecerem da costa paraibana. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), dentro do projeto ‘Coral – eu cuido’.

Os biólogos iniciaram o trabalho em agosto de 2018 para avaliar os corais do Seixas e Caribessa, trechos com visitação intensa. No Seixas, 85,38% dos corais apresentam um ‘branqueamento’ que indica a fragilidade; 7,92% estão doentes e 6,70% saudáveis. No Bessa, 53,40% estão saudáveis, 34,47% branqueados, 12,04% lesionados e 0,09% mortos por causas como anomalia térmica, fruto dos efeitos globais, além do turismo desordenado, com o grande número de pessoas que pisam na área.

A bióloga Rita Mascarenhas avaliou que as barreiras de corais são filtradoras e, se entrarem em contato com a substância dissolvida na água, a morte é quase imediata. “Caso afunde, em forma de placas, a morte daquela parte de coral onde se depositou é imediata”, sentenciou. Além da toxidade inerente, o petróleo cobre os corais. “Isso impede que se alimentem ou respirem, atingindo assim todas as formas de vida presentes no local, como esponjas, algas, crustáceos, peixes, mamíferos marinhos e tartarugas”, reforçou.

Tartarugas marinhas

O contato do óleo com a pele das tartarugas marinhas causa necroses, cegueira, impede o animal de nadar e respirar e, quando ingerido, pode matar rapidamente dependendo da quantidade.

“Para esses animais, o prejuízo também pode ser medido nas praias que, cobertas pelo óleo, as impede de desovar. Contamina ainda os ninhos em incubação na areia, podendo matar toda a ninhada ou causar anomalias nos embriões em desenvolvimento”, acrescentou.

Além das tartarugas marinhas que frequentam o litoral paraibano, há outras espécies ameaçadas por aqui, a exemplo das esponjas marinhas, crustáceos e as mais conhecidas das pessoas em geral que são os peixes-bois, tubarões-lixa, todas correndo sério risco de serem dizimadas.

Manguezais

Nos manguezais, os prejuízos são os mesmos que no ambiente marinho e nas praias. Com o óleo, a água é contaminada, assim como todas as formas de vida existentes, causando morte, das espécies mais sensíveis, como os animais filtradores e, em cadeia, as espécies mais resistentes, de acordo com Mascarenhas.

Praias
Praia de Gramame, em Conde (Foto: Assuero Lima/Jornal CORREIO)

“Ao atingir os manguezais, acarreta efeitos secundários de longo prazo, pois o aporte primário de energia nutricional no mar é dado pelos manguezais, que também são berçários para muitas espécies de animais marinhos, muitos deles ameaçados de extinção como os peixes-bois. Estando esses ambientes contaminados, compromete a sobrevivência de centenas de espécies no mar”, constatou.

Além dos mangues, o bioma costeiro marinho inclui outro ecossistema, as restingas, que podem ser atingidos dependendo da quantidade de óleo. De acordo com coordenadora de Estudos Ambientais da Sudema, Maria Christina Vasconcelos, se o material chegar da mesma forma que ocorreu em 30 de agosto, não atinge. No entanto, a preocupação do órgão é porque o material tem se apresentado bem mais denso e agrupado nos últimos dias em Pernambuco.

“Ademais, esse problema não impacta só o ecossistema, mas também a população, pois muitas pessoas dependem da pesca para sobreviver. Temos ainda a questão do turismo, que é muito forte aqui. É toda uma cadeia que pode ser prejudicada”, constatou.

Como conter o ‘vilão’?

Existem planos de contenção para diminuir ou impedir que o óleo se espalhe e para seu recolhimento ao atingirem as praias. De acordo com a bióloga Rita Mascarenhas, no mar, são usadas barreiras flutuantes que seguram o óleo para que seja recolhido. Nas areias, é feita a retirada manual e são usadas substâncias que atuam como ‘detergentes’.

Ela afirmou que ONGs, a população e órgãos públicos estão se mobilizando para essas atividades de limpeza e contenção nos locais mais atingidos fora da Paraíba. Porém, o avanço e quantidade de óleo foram muito maiores que o previsto.

A Rede Nordestina de Proteção às Tartarugas Marinhas (Retamane), composta por 15 instituições, desde ONGs até o Projeto Tamar, elaborou uma planilha de coleta de dados, está realizando treinamento das equipes e orientando a população para que se possa atender ao recolhimento do óleo nas praias e socorrer os animais oleados, seguindo protocolos adequados e utilizando equipamentos de proteção individual.

“É muito importante que as pessoas entendam os riscos de se exporem ao óleo e caso se voluntariem para ajudar sigam as instruções das equipes treinadas. Estamos mobilizados e vigilantes, junto com as prefeituras e demais órgãos públicos, para entrar em ação caso o óleo atinja nossas praias e, principalmente, alertas porque é início da temporada reprodutiva das tartarugas marinhas e elas precisam das praias para deixarem seus ovos”, completou Rica Mascarenhas.

Ibama monitora diariamente

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realiza o monitoramento diário em toda costa do Nordeste por imagem de satélite e até aeronaves, em parceria com a Marinha. As ações vêm sendo desenvolvidas desde o início de setembro.

Praias
Praia de Tambaba, Litoral Sul da PB (Foto: Alisson Correia/Portal Correio)

Há um alerta, que vale para os estados mais afetados, para evitar o consumo de frutos do mar. Outra recomendação do Ibama é que, se for encontrado algum animal ‘oleado’ no Litoral da Paraíba, a orientação é informar aos órgãos ambientais e não consumir.

Fiscalização

  • Sudema – 3218-5591
  • Ibama – 0800 61 8080 – só para denúncia
  • Marinha – Capitania dos Portos – 185
  • Batalhão Ambiental – 190

Efeitos são reais em outros estados

Pescadores que atuam em Gramame, Litoral Sul da Paraíba, temem que a mancha de óleo atinja o estuário e a Barra de Gramame, mas em outros estados, os efeitos da ‘invasão’ de óleo são reais e têm preocupado as autoridades ambientais. Tartarugas, por exemplo, foram encontradas algumas completamente oleadas em praias fora da Paraíba.

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Estuário e a Barra de Gramame, em Conde (Foto: Assuero Lima/Jornal CORREIO)

“Todos os cetáceos, peixe-boi marinho, botos, golfinhos precisam vir à superfície para respirar. Se estiver oleado, bloqueia o orifício por onde respira e ele morre. O contaminante é extremamente tóxico”, disse o professor-doutor Bráulio Santos, do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB.

Ele afirmou que o material que invadiu o litoral nordestino ameaça todos os ecossistemas marinhos e costeiros. Uma parte dele, que é solúvel em água, pode modificar as condições físico-químicas da água do mar e afetar a sobrevivência e reprodução dos corais, a função das esponjas, contaminando desde os seres unicelulares, que só podem ser vistos através do microscópio, até as baleias.

Além disso, conforme o estudioso, muitas espécies que vivem no mar são de interesse econômico para o turismo, para a pesca, seja esportiva, artesanal, comercial, de subsistência para populações que não têm o que comer. “Estamos falando num efeito em cascata que já está chegando a nós, seres humanos, sem falar no nosso contato direto com esse material na praia”, observou. “O impacto é grande, não só para os bichos, mas tem contato direto com nossas atividades diárias”, acrescentou.

Origem do material 

O professor Bráulio Santos, da UFPB, afirmou que pesquisadores de outras universidades já têm uma noção, baseada em modelos matemáticos, de onde veio o contaminante. “Surgiu de águas internacionais, muito provavelmente a uns 700 quilômetros da costa, mais ou menos alinhado com Paraíba e Pernambuco”, disse.

Esse, segundo, ele, é justamente o local onde a corrente sul equatorial se divide: “Uma parte vai para o Norte, que foi a que deve ter trazido aquela primeira leva de material para a costa paraibana, e outra vai para o Sul, longe ainda das praias. Quando chega na altura do Recôncavo Baiano, a corrente entra, se aproxima da costa e quando bate na costa muda o sentido”, explicou.

Por isso – continuou – começou a aparecer muito contaminante na Bahia, depois Sergipe, Alagoas, Pernambuco. “E agora, muito possivelmente, meu palpite é que, se chegar à nossa costa será por Pitimbu. Vai chegar pelo sul em virtude dessa circulação oceânica. Vamos esperar que não, porque o vento mudou um pouco, o que já é um apoio para soprar o material para outro local. Essa é a provável origem”.

O que fazer

Caso alguém se depare com esse material, não deve tocar, só fazer contato com equipamento de proteção individual (EPI) adequado, bota, luva, máscara, porque o cheiro é muito forte. Por outro lado, na opinião do pesquisador Bráulio Santos, é necessário um patrulhamento marítimo na região de Pitimbu, no Litoral Sul do estado para evitar que esse material chegue até as praias.

“Caso chegue, a situação muda de figura e será preciso informar à população, talvez criar um sistema de telefone único e, talvez, a Polícia Ambiental faça isso para centralizar os registros. Informar a população sobre como manusear com o EPI adequado, e se encontrar animal oleado, não tocar, mantê-lo úmido e ligar para as autoridades informando o que está acontecendo. Só uma equipe treinada poderá fazer esse tipo de procedimento”, frisou.

O último desafio, de acordo com o professor, é identificar o que fazer com o material que for recolhido. “Tem que ser corretamente armazenado e depois processado para ser aproveitado, se possível integralmente. Colegas de outras universidades estão desenvolvendo um protocolo para transformar o óleo em um carvão mineral, que pode ser utilizado na geração de energia e ser destinado para a indústria.

População tem que saber o tamanho do problema

A população tem que ser informada sobre o tamanho do problema para evitar que surjam outras situações que envolvam a saúde pública por falta de informação. “Se tocar, tem que limpar com óleo vegetal e gelo. Se tiver contato com a pele ou ingerir, correr para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para receber o tratamento adequado”, ensinou Bráulio Santos.

 

Para ele, é necessário que a população esteja bem informada sobre o que está acontecendo e que as pessoas ajudem. “Nessas horas, é bom todo mundo se unir, governo, ONGs, instituições de ensino e a sociedade em geral. A solução do problema passa por todos”, completou.

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